
o passado ficou preso aos cabelos dela, na casa inundada de "ontem"...
o passado não viveu dos beijos nem das camas amarrotadas, não foi cartas que se enchem de palavras sempre que um sol se põe.
porque não chamar hoje de passado e pensar nele antes de ser vivido ou sentido? porque tudo tem que ter uma determinada lógica que somos "obrigados" a seguir incondicionalmente?
hoje sinto-me passado e sou passado por isso, porque sinto, porque o sinto e porque mais ninguém sente, porque não importa o que esses ninguens sentem, dizem, berram, sussurram, falam.. importa que hoje eu sou passado e passado é o que eu não esqueci e é sonho, é o que não acontece porque o lugar dele é lá, distante. a culpa é minha, somente minha. ele deixa de me pertencer quando me distancio dele e quando vivo a autenticidade de um hoje como se hoje fosse o meu momento, como se o meu hoje não fossem horas, minutos, tempo.
apeteceu-me chamar passado a este momento, podia chamar-lho hoje ou agora, mas chamo-lhe passado. aproximo-me dele. falo-lhe de mim. falo-me de mim. e passado é o que existe porque ontem também existiu. passado é a linguagem calma de um poente, é a agitação tresloucada do mar que está mesmo à minha frente, é a pele molhada que noutro momento me fez pertencer-te um pouco mais. passado é o que me fez bem. e sinto-me viva. encaro a realidade com uma certa estranheza. apeteceu-me trocar o nome as coisas. apeteceu-me refutar o irretutável. esquecer a persistência da lógica que me amarra à sua forma quase perfeita. apeteceu-me acreditar que hoje pode ser passado. e por isso eu posso viver este momento tão intensamente como já vivi. posso quebrar a essência da novidade, hoje posso ser um pouco do que passou. eu sou porque já fui. fui porque já tinha sido. o ontem mora cá dentro! ontem... foi ontem...